Uma mudança não acontece por decreto
A revisão da ISO 9001 é uma ocorrência cíclica. Assim também acontece com outras normas. Mas lendo o blog de minha amiga Maria de Lurdes me deparei com este artigo, que mostra a necessidade de avaliarmos mudanças. Elas ocorrem de fato em que extensão quando impostas ou determinadas por uma revisão da norma, como a que agora acontece? Não vou entrar no mérito de uma revisão ser boa ou não, que isso cabe aos experts da ISO, mas nós profissionais da Qualidade sempre encaramos de forma positiva uma revisão. Esta de agora por exemplo não trará grandes alterações aos SGQ´s certificados, mas mesmo assim vem com arestas aparadas que melhoram seu entendimento.
Não devo me extender mais aqui, passo a palavra para a Maria de Lurdes, gestora que muito admiro e faz parte do meu rol de exemplos a serem seguidos:
Agora, agora! … estas ultimas partilhas de ideias criaram-me a necessidade de falar mais da minha actividade como Gestora da Qualidade. O bom e o menos bom. Só conhecendo as adversidades nos podemos preparar para elas. Nos próximos artigos vou contar umas quantas passagens… aliás vou Começar agora mesmo. Como sabem, além de consultora e formadora, sou Gestora da Qualidade desde 1995. Duma empresa que se certificou em 1997. Fui eu, em conjunto com uma pessoa que muito admiro, mas que entretanto se reformou, que criámos tudo. Desde a missão aos objectivos da Qualidade, desde a concepção da folha que iríamos utilizar para o Manual da Qualidade até à Instrução Técnica mais complexa. Estou a falar de uma empresa que à data de hoje conta com cerca de 600 colaboradores e tem delegações (bastantes) desde Braga aos Açores. Tem sido uma grande experiência. Foi este projecto, com todas as alegrias e tristezas que me tem dado que me permitiu saber o que sei hoje sobre o tema. E acima de tudo me ensinou a ser uma pessoa do terreno. Uma pessoa que tem que entender como funcionam a Organização e tem que encontrar a forma mais simples e prática de cumprir os requisitos de um SGQ. Mas… aprendemos a andar caindo, partindo a cabeça, magoando, chorando… e por fim claro fazemos corridas imensas. Inicialmente muito felizes porque já conseguimos, depois normalmente seguros e confiantes e quando crescemos mais já nem pensamos que um dia chorámos. Mas logo aparecerão outras coisas que teremos que aprender e… tudo se repete. Tanta conversa para dizer que a vida de Gestor da Qualidade (ou outro qualquer sistema do género) tem sempre muitos obstáculos, muitas dificuldades, muitos momentos em que nos apetece desistir… e a seguir… olhamos para o lado e… tentamos mais uma vez… e vamos conseguindo dar pequenos passos. Na minha opinião não precisava ser assim. As exigências das normas não são difíceis de cumprir, são regras de puro bom senso que ajudam na gestão das empresas,… só que… Quando a actual ISO 9001 estava no seu processo de revisão de 2000 eu estava a frequentar uma Pós-Graduação em Engenharia da Qualidade. Tive o privilégio de ter acesso às alterações enquanto ainda estavam em discussão. Seria uma fase idêntica à que estamos hoje com a revisão 2008.Vinha da Pós-Graduação muito entusiasmada e comentava com a pessoa que desenhou o sistema comigo:
- Bom Engº., a nova versão da Norma é um espectáculo! Agora vamos ter gestão por processos, os vários responsáveis vão ter que se envolver mais,… e tem que ter objectivos para os processos, isso vai obrigar ao seguimento das coisas,… agora as coisas vão mudar.
Mas o Eng.º… tinha a experiência e a serenidade que só os anos dão e na sua calma, gesticulando de forma harmoniosa com as mãos respondeu-me:
- Sabe Maria de Lurdes, quero dizer-lhe uma coisa: não fique triste com o que vou dizer; mas não vai mudar nada. O que é necessário é que mude o que está na cabeça das pessoas e isso não muda só pelo facto da norma mudar!
Esta conversa foi há oito anos e continua tão actual…
publicada por Didaskou em 26/Jun/2008
NOTA: Esta frase do Eng.º que foi mentor da Maria de Lurdes, hoje reformado (aposentado, em português do Brasil), é uma frase que resume o dia-a-dia dos gestores da Qualidade em todo o mundo. Nela pude perceber o cansaço e o otimismo caminhando juntos num profissional que não se deixou abater pelas dificuldades e decepções da função, os famosos “ossos do ofício” que todo profissional tem que encarar.


















FEEDBACK