Ano que vem em Setembro, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) fará 70 anos. Uma respeitável senhora que não envelheceu; pelo contrário! Se moderniza continuamente e tem hoje vitalidade de sobra, aliás muito mais que em sua juventude!
Como profissionais da área da Qualidade, a história da normalização no Brasil é (ou deveria ser) assunto de nosso interesse; portanto trago aqui um resumo dessa história pinçando fatos curiosos de seu desenrolar. Quem tiver interesse em mais dados e numa biografia séria, poderá ter acesso a isso depois.
A idéia da criação da ABNT surgiu da necessidade de se elaborar normas técnicas brasileiras para a tecnologia do concreto, para substituir as normas que eram utilizadas pelos diversos laboratórios de ensaio do país. Imagina a confusão que era na década de 30, com cada laboratório dando um laudo diferente para o mesmo material!…
A primeira reunião com esse objetivo de normalizar o segmento de ensaios de concreto teve tudo para ser um fiasco. De seiscentos convidados apenas quatro (!!!) responderam… Mas no dia apareceram quarenta técnicos para participar do encontro (ufa!).
Só em 28 de setembro de 1940, na 3ª Reunião de Laboratórios Nacionais de Ensaios, é que foi de fato fundada a ABNT.
A primeira sede, localizada no Rio de Janeiro, na Avenida Almirante Barroso, 54 – 15º andar, contava apenas com uma secretária cedida pelo INT (Instituto Nacional de Tecnologia), e até os móveis eram emprestados! Em São Paulo também, quando em 1942 decidiram montar um núcleo da Associação, o espaço foi cedido pelo Instituto de Engenharia e a secretária pela FIESP.
Em 1968 ela foi forçada a procurar novas instalações, pois o Banespa retomou o 24º andar do prédio onde estava (a sede do Banespa) e um dos sócios fundadores, o Eng. Júlio Rabin, foi seu fiador quando ela alugou um espaço em um prédio na Marquês de Itu, no centro de São Paulo.
Não se sabe ao certo qual a primeira norma criada pela ABNT! Na verdade, ela é que foi criada como conseqüência da criação das primeiras normas, nas tais reuniões que falei antes… Quando a ABNT foi
fundada, decidiu-se que as Normas Brasileiras seriam codificadas segundo a sua finalidade:
NB – Norma de procedimento e cálculo,
MB – Método,
PB – Padronização,
TB – Terminologia,
CB – Classificação,
SB –Simbologia e
EB – Especificação.
Soa bem burocrático, né? Atualmente as normas da ABNT são designadas somente como ABNT NBR.
Entre 1975 e 1978, no regime militar, o Governo quis estatizar a atividade de normalização, transformando
a ABNT num órgão subordinado ao INMETRO. Não conseguiu. O curioso é que um dos maiores defensores da não privatização da ABNT era um general da reserva, Napoleão Montagna de Souza, seu presidente na época.
A ABNT participou da fundação da International Organization for Standadization (ISO), da Comissão Pan-Americana de Normas Técnicas (COPANT) e da Associação Mercosul de Normalização e continua realizando trabalhos importantes dentro desses organismos, conquistando respeito no cenário mundial.
E se você acha que só nós, meros mortais, é que sofremos com o famigerado Plano Collor, veja o azar da ABNT: As anuidades dos associados eram pagas dia 15 de Janeiro. Quando o plano foi implantado, em 16 de Março de 1990, quase todo esse dinheiro estava ainda na conta da entidade e foi bloqueado! E a ABNT foi obrigada a segurar as pontas com a merreca de Cr$ 50,00 por mês, como todo mundo…
Como resultado da intensa participação da ABNT nos fóruns de normalização internacionais, o Brasil foi escolhido como sede de uma reunião plenária da ISO, realizada em junho de 1996, na qual foi aprovada a Série ISO 14000.
Cerca de 300 pessoas dos cinco continentes, falando as mais variadas línguas e representando diferentes partes interessadas (stakeholders), tais como ONGs, setores produtivos, governos e consumidores, estiveram reunidas em Salvador, Bahia, em março de 2005. Por essas razões, muitas foram as posições conflitantes durante o evento, dificultando a obtenção de um consenso. Essa “torre de Babel” foi o primeiro encontro para criação da ISO 26000, a norma sobre Responsabilidade Social. A ABNT, em parceria com a Suécia, lidera este Grupo de Trabalho da ISO.
Os trabalhos da ABNT atualmente são desenvolvidos por 58 Comitês Brasileiros e 4 ONS – Organismos de Normalização Setorial, cada um atuando em área específica e formado por especialistas nos assuntos tratados. No caso da Gestão da Qualidade, o responsável é o CB-25. Se você acha que a ABNT apenas “copia” normas estrangeiras, saiba que o ABNT/CB-25 sempre participou de todos os Grupos de Trabalho
do ISO/TC 176 e do ISO/CASCO, elaborando e revisando os documentos emitidos pela ISO em seu campo de aplicação, tendo forte influência nas decisões! De 1992 até hoje, o Comitê participou
da elaboração de 35 documentos normativos internacionais no ISO/TC 176 e de 41 guias de normas de avaliação de conformidade no ISO/CASCO.
Após o processo de desenvolvimento de uma norma, o Projeto de Norma Brasileira é submetido a uma Consulta Nacional e qualquer interessado pode emitir sua opinião quanto ao conteúdo do documento.
Se pesquisarmos o acervo de mais de 10.000 normas da ABNT, identificaremos normas dos mais diversos segmentos, que estão presentes no cotidiano das pessoas. A casa onde vivemos, os transportes que utilizamos, o banco onde guardamos nosso dinheiro, a alimentação comprada no supermercado e até mesmo pequenos objetos como um simples palito de fósforo requerem um padrão a ser seguido.
A história da ABNT como organismo de certificação de produtos teve início cerca de uma década depois de sua fundação, começando pela certificação de extintores de incêndio. Assim, até a década de 1970, no Brasil, certificação era sinônimo de proteção contra incêndio… Atualmente a ABNT Certificadora tem uma forte participação no mercado de certificação, oferecendo uma ampla gama de certificações de produtos, serviços e sistemas.
Baseado no livro “Histórico ABNT – 65 anos”
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